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SAAE contempla comunidade do povoado Pregos com revitalização do seu sistema simplificado de abastecimento d'água

Em Pregos o sistema de abastecimento de água foi revitalizado. Os moradores do povoado Pregos formam uma das comunidades mais esquecid...

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Edgar Moreno: retrato das águas

Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.


Já vai alto o dia e eu resolvo “retratar” minha cidade, tentando compreendê-la no choro que lhe cai do céu. Admiro-me que amanheceu sem chuva, e o sol até chegou a dar um ar de riso. Mas essa bonança tropical já são águas passadas. Resguardo minha folha. Fontes meteorológicas preveem que nossa pluvial companheira continuará a cair sobre este chão por toda a semana. O leito do Mearim, já transbordante, há de se fartar mais ainda de água e lixo, causando vexame à gente da Trizidela e aos ribeirinhos dos baixões a fora.
Ainda é manhã. Na Estrada da Bela Vista, o movimento parece até mais intenso que ontem por ocasião da blitz de trânsito. Os transeuntes ziguezagueiam na longa avenida, disputando com os veículos um lugar no asfalto esburacado. Para que tanta pressa? E o guarda-chuva? Certamente por cautela de um aguaceiro mais tarde.
Esta, meu leitor, tem sido nossa rotina climática nos últimos dias. E sendo tu bacabalense ou não, já bem a conheces. O fato tem sido bem noticiado até mesmo na imprensa nacional.
Falando nisso, aproveitando eu a estiagem desta manhã, pude fazer algumas fotos literais da cidade. Outras delas, só pude fazê-las com a alma, mas há várias outras que podes ver aqui em palavras. Como apreciador dessa arte, e, sem querer fazer tempestade em copo d’água, confesso-te, meu caro leitor, as imagens me saíram belas e poéticas, de encher os olhos; o motivo é que se me afigura feio, e de cortar coração. Chega a ser impressionante.
O rio caudaloso espalha-se além-bordas e, feito um bicho serpentino, segue a escorrer forte, invadindo casas e plantações, afugentando animais, destruindo o que há pela frente. Curiosos lotam as imediações da ponte, onde o Corpo de Bombeiros da Capital presta assistência. Debalde procuram o corpo de um jovem tragado pelas águas. Uma mulher lava louças e os filhos pescam no terreiro de casa; acolá uns homens jogam baralho, outros oferecem passeio de canoa por algum real, e outros, vigilantes, resistem com seus móveis sobrepostos ou em sua casa vazia, temendo o saque de seus bens a tanto custo obtidos. Do outro lado da cidade, as velhas usinas e galpões, outrora celeiros de arroz, babaçu e algodão, agora servem de abrigos para centenas de ribeirinhos. Depósitos abandonados, casas de amigos e até igrejas também têm a mesma função. As entidades se mobilizam arrecadando donativos. Por sua vez, as autoridades se “sacrificam” para distribuir cestas básicas, mas aproveitam para se fazer acompanhar de toda sua caravana política e aliada.
− Muito obrigado, os desabrigados os aplaudem.
Dona Maria de Tal, que elogiou a atitude do governo se viu repetidas vezes na TV local; já outras Marias foram a um canal diferente denunciar não terem ainda recebido cesta alguma, e o pior, de haver gente trocando donativos por cachaça.
Vê, meu leitor, a que ponto se chega: lograr com a miséria alheia.
Estes “retratos” me fazem pegar carona com os mais velhos e voltar ao ano de 1974, quando por aqui se registrou a maior enchente e que repercute até aos nossos dias. Neste 2009 é tanta água, que me arrisco a chamar o fenômeno de 3º Dilúvio Mearinense. Convenhamos, muita água já rolou por baixo de nossa quinquagenária ponte! É possível mesmo que o volume absoluto de água supere o daquele ano, sobretudo se considerarmos o desvio do leito do rio feito há alguns anos e o constante assoreamento de suas margens. E não será esta enchente o troco da própria Natureza? Todavia, meu bom leitor, não estou aqui para levantar teorias, mas para te retratar essa gente a que chamamos de “alagados”.
Vê, que estando tu na tua casa, ainda que simples e pouco confortável, tua condição é indubitavelmente privilegiada e grata, se comparada a dos nossos cerca de 2.700 coirmãos sem comida, sem saúde, sem teto ou energia e, ironicamente, sem água. E, por mais que já tenhas cooperado, meu caro, a situação continua dramática. É preciso, pois, não desistir desta luta que é de todos.
Resta-nos ainda a ação e a fé. Quem sabe, assim como a lua, as águas também minguem e a esperança dessa gente renasça para novos dias e à reconstrução de suas casas e de suas vidas.