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Antônio Melo: A fogueira da inquisição jornalística

Por Antônio Melo
Jornalista

Em pouco mais de um ano 530 matérias negativas contra oito positivas no jornal O Globo, 308 negativas e duas positivas no Estado de São Paulo, 278 negativas contra 40 positivas na Folha de São Paulo, 12 capas na revista Época, 19 na Veja e 25 na IstoÉ –todas negativas, além de 18 horas e 15 minutos de matérias negativas só no Jornal Nacional da Rede Globo.

A vítima, você já adivinhou: Luiz Inácio Lula da Silva. As estatísticas, ele as recitou perante o juiz Moro em seu depoimento, quarta feira.


A controvérsia Lula x Lava Jato, não vai passar por aqui. Mas vamos voltar, isto sim, a um tema recorrente: a famosa liberdade de imprensa. Ou melhor, a falta de liberdade de imprensa que prejudica toda nossa sociedade. O que temos, em desfavor de todos, é um jornalismo vigiado, dirigido, de profissionais alugados que em nome dessa falsa liberdade, defendem interesses de grupos empresariais ou políticos. Distanciam-se cada vez mais da sua tarefa de funcionar como olhos e ouvidos da cidadania, seu único patrão, e do dever de dar publicidade àquilo que for notícia, sem censura de qualquer espécie.


Mas as coisas não funcionam assim. Talvez em nenhum lugar do mundo. Mas por aqui, é pior. Enquanto o país se redemocratizou, a imprensa parece ter ido no sentido inverso. Quando não há crises como esta que atravessamos e que mexe com interesses dos empresários de empresas de comunicação, investem na disputa de audiência ou da venda de jornais, a qualquer preço. Não se importam em jogar na fogueira da insanidade, reputações inocentadas depois, embora jamais resgatadas do inferno a que a mídia as condenou.

Foi assim com a médica Virgínia Soares de Souza, paranaense, acusada pela morte de pacientes em UTI do Hospital Evangélico de Curitiba. Foi massacrada pela imprensa, apontada como um monstro e que agia por dinheiro para abrir vagas para outros doentes. Os fatos são de 2003. Agora, 14 anos depois, foi inocentada. Doutora Virgínia teve sua carreira arruinada. Hoje trabalha como telefonista numa empresa de telemarketing.
Tem também o caso da Escola Parque de São Paulo, onde os proprietários foram acusados de pedofilia. Era uma boa escola com alunos de classe média. Os donos, marido e mulher, foram presos, a escola depredada, fechou. Os jornais publicaram fotos deles, os monstros que abusavam de crianças. O delegado deu entrevista. Os programas policiais da TV defendiam a pena de morte para os dois. As rádios escandalizavam. Depois, descobriu-se que tudo era uma farsa envolvendo o próprio delegado. Mas aí o negócio havia falido, o casal se separado e ido cada um morar em outro estado. A desgraça para aquelas vidas estava feita.


Em Sorocaba, São Paulo, o jornal Cruzeiro do Sul, o de maior circulação na cidade, que vinha cobrindo a greve do dia 28 de abril de forma isenta, foi invadido, pelo promotor da Vara da Infância e da Juventude, Antônio Farto Neto, membro do ministério público e do conselho consultivo da empresa, que mandou -com ameaças, murros na mesa e gritos- mudar a cobertura para dizer que a greve fracassara na cidade e que prejudicava a sociedade. E quem não cumprisse sua orientação iria perder o emprego.

O jornalismo hoje é assim. Do dono. Ou sempre foi.


Há um bom tempo crepitam na fogueira da imprensa, como se viu na abertura deste artigo, atiçadas nas brasas de interesses obscuros, reputações de um número incontável de pessoas. Praticamente sem direito ao contraditório. Sobre elas, jogam-se cada vez mais gasolina de delações que esses mesmos veículos não cansam de repetir, de explicar porque sim, porque não, porque talvez, porque poderia ser...


Nessas "coberturas permitidas", pouco destaque ao juiz federal de Brasília que mandou fechar o Instituto Lula, alegando que atendia pedido do Ministério Público. Pois é. O meritíssimo escreveu isso. Aí vem o ministério público e diz que não pediu coisa nenhuma. Ou seja, que o juiz mentiu. E como fica? Agindo assim, o que esse magistrado quer que se pense da justiça? E a imprensa, pelo menos a Rede Globo noticiando o fato pela metade, sem citar a mentira do juiz, quer que se pense o que dela?


Imprensa livre é um dos princípios fundamentais da democracia. Infelizmente, nossa democracia é coxa. O massacre que se realiza hoje dos personagens de um só lado, está aí para provar. Mas na mesma fogueira inquisitória também estão sendo consumidas biografias de renomados colegas que, tolhidos pela submissão ou o desapego à ética profissional, sacrificaram às chamas a verdade, a investigação jornalística e a análise isenta que a sociedade tem o direito de esperar da imprensa e o profissional o dever de entregar.