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Antônio Melo: Só há um caminho, dar-nos as mãos

Por Antônio Melo
Jornalista

Há bons médicos e há médicos que, em clínicas clandestinas fazem abortos, realizam cirurgias não indicadas, implantam silicone impróprio em pacientes desinformadas. Grandes advogados e advogados que levam celulares para presídios, correspondências de presos a comparsas do lado de fora das cadeias, recados para ataques criminosos. Há padres como o Papa Francisco, e padres pedófilos que ele quer ver pagando não só pelos pecados diante de Deus, mas também pela ignomínia dos seus crimes perante a justiça dos homens.


Por que todas essas salvaguardas?


Porque também há políticos e políticos. E, quer queiram quer não, é neles que está a solução para a atual crise brasileira.


Que não é a maior nem a mais grave que já tivemos. Apenas a única que virou um BBB –isso mesmo, um Big Brother Brasil, repetido até encher o saco.
De 1964 a 1984, vivemos um período de graves crises. Nossas liberdades foram sendo engolidas pela garganta profunda dos apetites autoritários. Suprimiram o direito de escolher presidente, governador e prefeito, o habeas corpus, a liberdade de imprensa, o direito de informar corretamente os crimes de corrupção e formação de quadrilha dentro do poder ditatorial - que já eram denunciados por outros dissidentes daquele mesmo poder. Mas, em contrapartida nos deram os senadores biônico, os sucessivos fechamentos do congresso, a constituição outorgada, as cassações de mandatos, os banimentos, os desaparecimentos, a tortura, o bipartidarismo consentido, atentados à bomba de direita e de esquerda, o AI-5, a guerrilha. Mortes, muitas mortes.
Mas chegamos ao 1984 impensável de mãos dadas. Sob uma chuva torrencial que desabava simbolicamente em Brasília, uma imensa bandeira brasileira era conduzida por centenas de mãos, subia a rampa do Congresso ao som do hino nacional cantado por milhares de brasileiros de alma lavada, consagrando a vitória do povo e da política sobre as armas; da conciliação sobre o arbítrio; da união, sobre a desavença.


Foi o espetáculo mais lindo que a profissão de jornalista me permitiu testemunhar. Ao meu lado, no carro do Jornal do Brasil, meu chefe Ricardo Noblat, chorava. A emoção contaminava a todos. Tancredo Neves derrotava o imbatível deputado Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. Deputados se abraçavam, em lágrimas. O hino nacional era ouvido por toda a parte.


Ao escrever tudo isso, presto uma homenagem à classe política. Não aos maus políticos. Mas aos bons. Sim, eles existem. E, ao contrário do que alguns pensam, são muitos. À direta e à esquerda. Mesmo ao centro, se é isto uma posição.


Sim, naqueles tempos tenebrosos também tínhamos os maus políticos. O Maluf, com sua famosíssima tropa de choque. E era maioria. Um séquito fiel ao fisiologismo, ao é dando que se recebe, o famoso toma cá e vota lá. Também naqueles idos a Globo era como é agora. Apoiava a ditadura e todos os seus atos, mentia, justificava, enganava. O primeiro comício das diretas, em São Paulo, com mais de 400 mil pessoas, noticiou e mostrou como uma festa pelo aniversário da cidade. Cinquenta anos depois, reconheceu que errou apoiando o golpe de 64.


Estamos novamente metidos numa grande enrascada. Desta feita não temos mais Ulisses nem Tancredo. Resta, daqueles tempos, o ex-presidente José Sarney e uma enxurrada de outros coadjuvantes. Sarney está se incorporando ao grupo que enxerga uma saída para a crise na proposta do ex-presidente Fernando Henrique. Certamente pela via constitucional, sem atalhos que se constituam em um novo golpe parlamentar. Mas que esta saída também não imponha vetos a pessoas, o que seria um grande retrocesso.


Como retrocesso foi o injustificável vazamento da conversa do jornalista Reinaldo Azevedo com Andréa, irmã do senador suspenso, Aécio Neves. O segredo da fonte está garantido pelo artigo V da Constituição. Ao violá-lo, atingiu-se muito mais a sociedade que o jornalismo, pois este é apenas uma ferramenta para levar a você a informação correta. Não a oficial, a camuflada em notas, releases ou informes de porta-vozes. Esse vazamento tem ainda um detalhe muito mais grave. É que milhares de pessoas, sem nada a ver com qualquer desses inquéritos, por tabela, também estão sendo gravadas. Imagine-se agora que o telefonema da filha de uma pessoa, para a casa do namorado, onde alguém esteja sendo monitorado, tenha caído no grampo. Mesmo não divulgado, o conteúdo da conversa de namorados pode estar fazendo a alegria dos "arapongas".

O Ministério Público, a Polícia Federal e qualquer órgão policial têm a responsabilidade de coibir a corrupção. Mas, primeiro, o dever de proteger e respeitar a Constituição e a Cidadania.