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Antônio Melo: O homem da mala preta


Por Antônio Melo
Jornalista


O que você leva mais a sério, o resultado de uma partida de futebol ou uma decisão da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara?

Acho que a questão não é difícil.

Tomemos o presente caso em que a CCJ decide se recomenda ou não ao plenário que autorize o Supremo a investigar o presidente da república por crime de corrupção. Para isso, a dita comissão precisa aprovar o parecer do relator que não vê outra alternativa que não seja os senhores deputados darem essa permissão.

O time pró-presidente, ou seja: contra o relatório e a investigação, são os atletas (deputados) da "base aliada".

Os favoráveis a investigação, formam nas hostes da oposição minoritária, mas cheia de reforços de times das divisões secundárias, os chamados indecisos e, até, da seleção adversária que, insatisfeitos, resolveram vestir o uniforme do contendor.

Numa partida de futebol cada técnico pode fazer até três substituições. E faz isso porque o atleta está jogando mau, tendo desempenho fraco.

Na CCJ, a comissão técnica do time pró-Temer, alojada no Planalto, mas com emendas por todo o país, ordenou um absurdo troca-troca de deputados antes mesmo do jogo começar.

-Isso pode, Arnaldo?

-Se fosse no futebol, que é coisa séria, podia não. Mas lá na CCJ, pode. Afinal lá, ultimamente, do pescoço para baixo é canela, meu caro.

Na crônica esportiva, não é difícil topar com as historias do "homem da mala preta". Aquele personagem encarregado de comprar partidas para que times menores entreguem o jogo.

Para os lados da CCJ não tem essa historia do "homem da mala preta", mas tem o tal do "é dando que se recebe", irmão gêmeo do primeiro. É o que está acontecendo agora. Abertas as torneiras das emendas parlamentares pelo Planalto, os atletas da seleção que aceitaram a "vitamina" presidencial, prometem uma virada no placar.

Aturdido, o time da oposição recorreu à Justiça Desportiva, o Supremo Tribunal Federal, contra o troca-troca parlamentar e até apelou por um exame antidoping. Mas o STF -aquele mesmo tribunal que antes, metendo-se nos assuntos internos da Câmara, mandara que os deputados votassem de novo a lei do abuso de autoridade que não havia sido aprovada ao gosto dos senhores procuradores; que não se constrangeu em suspender o mandato do senador Aécio Neves -pilhado em atividades pouco ortodoxas- imiscuiu-se em assuntos da competência dos senadores- encheu-se de pudores. A ministra Carmen Lúcia, presidente da mais alta Corte do país, deu uma de Pilatos: lavou as mãos, dizendo que o troca-troca era para ser resolvida lá na Câmara. O STF não se meteria.

O que vai restar do Brasil depois disso tudo? Já temos uma presidente vítima de impeachment; um ex-presidente condenado em primeira instância; um presidente na iminência de ser levado às barras dos tribunais por corrupção; um ministério onde são raros os nomes que não estão sob investigação; um congresso com parlamentares investigados por vários tipos de falcatruas; um judiciário imprevisível em suas decisões (vide os julgamentos das nomeações de Lula para o ministério Dilma e Moreira Franco para o ministério Temer); um ministério público que ainda não explicou o papel dos bancos nesses escândalos todos, na movimentação desses bilhões de reais, de dólares, de euros... em que bancos estavam, como foram movimentados, por que o Coaf não viu, ou viu...

Neste domingo vou assistir ao meu futebol. Porque a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, a atual geração de políticos transformou apenas numa placa pendurada na parede.

E o Brasil, o que será?