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Ministro da Cultura bate boca com público no Prêmio Camões

Roberto Freire reagiu a gritos de 'Fora Temer' na homenagem a Raduan Nassar

Ministro da Cultura Roberto Freire discursa durante cerimônia de entrega do Prêmio Camões ao escritor Raduan Nassar (centro) - Marcos Alves / Agência O Globo


POR ALESSANDRO GIANNINI

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SÃO PAULO — Após o fim do discurso de Raduan Nassar, que ao receber na manhã desta sexta-feira o Prêmio Camões de Literatura criticou o governo brasileiro, o ministro Roberto Freire se manifestou e acabou batendo boca com a plateia. O político reagiu ao coro de "Fora Temer", puxado por parte do público depois de Raduan ter, entre outras coisas, chamado Freire de "ministro do governo em exercício". O autor de "Lavoura arcaica", normalmente recluso, também comparou as recentes decisões do Supremo Tribinal Federal (STF) com o passado da ditadura militar e definiu o impeachment de Dilma Rousseff como "golpe consumado".

Em clima de constrangimento geral, Freire tomou a palavra logo após Raduan. Disse que "estamos vivendo um momento democrático e que é muito diferente do período de ditadura". Após ser vaiado e contestado por parte do público que lotou o pátio do Museu Lasar Segall, em São Paulo, o ministro criticou os manifestantes dizendo que "é fácil fazer manifestação num governo como este, democrático". Ele chegou a ser interrompido pela filósofa Marilena Chauí e pelo poeta e crítico Augusto Massi, que bradou:


— Deixe a obra do Raduan falar.


Freire continuou:


— Quem dá prêmio a adversário político não é a ditatura.

O ministro disse ainda que "o prêmio é dado pelo governo democrático brasileiro e não foi rejeitado" pelo autor. O Camões é concedido pelos governos do Brasil e de Portugal, e foi oferecido a Raduan em maio, ainda durante o mandato de Dilma. Em nota, o MinC acusou o PT de organizar o ataque contra o ministro.


— Hoje, a regra de algumas pessoas que, até por terem testemunhado na História o que é um governo resultante de um golpe que reprime, vêm aqui para ter um testemunho da ampla liberdade de um governo que até premia um adversário político. Essas pessoas que vieram aqui falar em governo de exceção causam perplexidade pela estultice, que não tem cabimento — disse ele, após a cerimônia.

Ele ainda ressaltou, em conversa com jornalistas, a "deselegância do agraciado":


— Se ele viesse para dizer que não aceitava o prêmio, poderia ser até justo todo esse teatro que ele fez. Mas recebendo tudo, com a presença de todos que quisessem se manifestar, numa demonstração de evento democrático, e dizer o que ele disse, tem que receber a resposta que ele recebeu.
Ao fim do evento, a presidente da Biblioteca Nacional, Helena Severo, lamentou que a cerimônia tenha sido "desvirtuada".

— Vim aqui para entregar um prêmio literário para um grande escritor. Essa cerimônia foi desvirtuada. Luta política é uma coisa, a outra é transformar esse momento num momento de exacerbação. A condução desse processo, gritando e interrompendo o ministro, foi descabido. Não foi razoável.