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Edgar Moreno: Politicagem Assassina

Por Edgar MorenoCOSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno.

Sentado num banco da Praça da Juçara, o velho Astrogildo se punha inconformado e incrédulo em suas conjeturas filosóficas. Aquele dia não era o dele. Não pela filosofia em si ou pelo breve reumatismo, mas pelo assunto em voga em todos os recantos da cidade: panfletos, outdoorzinhos, tietes, promessas no rádio e na TV...


−O fato, meu caro Francismundo, é que algumas coisas nesta vida nos chegam doces; outras insípidas, outras doloridas, e outras ainda, que terminam por nos provocar profundas e constantes náuseas – O velho senhor fitou serenamente no companheiro uns três anos mais moço – São as que nos provocam náuseas que nos vão matando mudamente, pois se incrustam em nossa alma individual ou coletiva, refletindo-se em nossa qualidade de vida. Uma dessas coisas é a Política. Isso mesmo, meu caro, a Política não passa de uma assassina! – resmungou convicto.


Estava ali há um tempinho. De volta da caminhada, escolhera aquele local para espairecer os músculos, mas logo estava a refletir sobre a maldita política: alianças, partidos, candidatos, propaganda eleitoral gratuita e coisas do gênero. E, por mais que quisesse, não podia se negligenciar desse sofrimento, que ao mesmo tempo o matava e o fortalecia como cidadão. Enjoou disso. Quase se levantou para sentir de perto a brisa do rio e contemplar a entrada da cidade, mas logo murchou o riso postiço. Não viria nada que não apenas umas bundas de casas do lado da Trizidela apontando para a BR, uns quintais sórdidos de cercas de talos emendando com o mato das olarias; já do lado Oeste, no lugar duma tripla e prometida Avenida, outro matagal a beirar as Cohabs e logo ali um condomínio comercial – sem produtos e consumidores – a esperar o progresso.


Essas considerações faziam a própria fala de Astrogildo, que viu em Francismundo a pessoa ideal e talvez única de ouvi-lo sem defender grupo ou candidato A ou B, ao contrário, o homem estava interessado e não pôde deixar de perguntar:


−Mas o que isso tem a ver com assassinato, Astrogildo?


−Muito. Tudo, aliás. Sem falar nas mortes literais na saúde, na segurança, a morte aí, é coletiva, econômica, mas principalmente paisagística. Vai bem aí em Lago da Pedra. É uma cidade bem menor, mas tem um portal de boas-vindas florido e aprazível. Santa Inês logo vai nos deixar atrás no comércio, indústria... 


Tem linha de ônibus e tudo mais. Já aqui, ninguém nunca prezou por isso. Os interesses são sempre outros que não os do povo. A política é uma doença, uma doença incurável e lucrativa.

− Mas, Astrogildo, na democracia a Política é fundamental...


−A política, sim; a politicagem nunca. Isso é desprezível. Veja que a politicagem é o grande negócio deste país e a maior responsável por seu atraso. As leis são falhas e protetoras de bandidos, que na pele de cordeiros, se prevalecem disso para enriquecer ilicitamente, driblar e comprar a justiça, formar cartéis e verdadeiros impérios. Qualquer fraudulento pode se candidatar. E o povo, ou a grana, o elege... É uma lástima!


−Você devia se candidatar – disse Francismundo lisonjeiro.


−Nunca quis ser político, prefiro ser politizado. Ademais nunca entenderei a Política claramente. Ela será sempre um bicho feio e lendário, uma Cuca do Sítio, uma atitude desonrosa, um enxerto podre, uma tela surrealista, uma bosta.


Disse isso e saiu. Esticou o pescoço ao rio. Nem cheio, nem seco. Sujo. Olhou com receio a estrutura da velha ponte. Saiu logo por precaução. Colheu uma flor do canteiro central. Não tinha cheiro, nem lixeiro. Terminou levando-a na algibeira do calção: um... dois... um... dois...