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Edgar Moreno: Tuquinha se acha!


Por Edgar Moreno
COSTA FILHO, João Batista da que também representa o heterônimo Edgar Moreno

Ela surgiu do nada, ou melhor, dos pés enxotantes da vizinhança. Não sei de onde veio. Talvez a tenham abandonado no baixão da Vila. Seu destino poderia ser qualquer casa da minha rua, qualquer rua de meu bairro, qualquer bairro de qualquer cidade, qualquer portão aberto, qualquer pessoa... Mas ninguém a queria. Nem eu. E isso se fazia visível em seu pelo sardento, na timidez do olhar, na falta de felicidade. Ela talvez não apreciasse o lixo, mas também não pretendesse o luxo, apenas queria alguma comida, um sorriso, um afago, uma chance de viver, um dono...


Pequena, órfã, feia e expulsa, acolheu-se na nossa calçada, junto ao muro. Veio o sereno, a chuva... De alguma forma conseguiu abrigar-se na área, e lá se escondeu, tímida e medrosa. Fazer o quê? Jogá-la fora no relento da chuva? Expulsá-la sem dó? Arrastá-la com uma moto pela rua? Pernoitou. Veio a manhã. E ela lá, aconchegada num canto. Muito desconfiada e metida, olhei-lhe feio, e ela, se fez obediente, na verdade se fez medrosa, porque obediência mesmo... (Soube disso depois). Foi ficando, ficando... Ganhou a primeira ração da sua vida. Comeu feito uma condenada. Veio seu primeiro banho. E não reagiu mal. Pareceu-me até estratégia... À noite, ressonou feliz, foi expondo sua simpatia e, literalmente mostrando as unhas...


De manhã, porém, com os primeiros resultados da comida espalhados pela área, começou o dilema em torno da nossa agregada: Não fica. Fica. Não quero. Quero. E ela apenas foi ficando. Ao ver a área e papéis bagunçados, caía-me certo arrependimento, misturado duma compaixão e escotismo. Explico: sendo eu escotista, não poderia “trair” Baden Powell na 6ª Lei: “O escoteiro é bom para os animais e as plantas”. Entre prós e contras, divulguei-a para adoção no Facebook. Nominei-a de Tuquinha. Era tudo que ela esperava para se achar a tal. Ramiro e Olávia queriam-na, mas não queriam seu asseio diário. A patroa, a priori contra, se tornaria sua maior e mais decisiva defensora. Tuquinha não sairia dali. Iríamos criá-la. Como? Se já temos um cachorro “macho”? – argui sem sucesso. Todavia, assim como algumas pessoas, Tuquinha não me parece ter nascido para a derrota, ao contrário, vai vencendo pela estima e simpatia. E começou pelo próprio Scoob-Doo, nosso cachorro, que, mesmo enciumado, não se lhe representou nenhum problema, tampouco ela se acanha para ele. Não houve estranhamento, apenas algum sutil “chega pra lá”. Foram se dando até ele se acostumar com as massagens de suas mordidelas, latidos e corre-mordes, a história se repetiu com Álex, o gato, de quem ela simpatizou o movimento da cauda.


Por fim, ela tornou-se nosso motivo. Entretanto, minha maior queixa vem de meus pés, calcanhares e roupas. Já no abrir do portão ela se agarra à barra de minha calça, mordiscando-me os tornozelos e meias, como a dizer: “Você chegou!”. Se vou ao computador, não tenho sossego. Ralho. Enxoto-a, mas ela responde com suas mordidelas finas. Insatisfeita, persegue-me se vou tomar água; olha-me comprido, se como algum petisco; tira-me do sério. Com os demais da casa, a coisa vai bem parecida: puxa os cabelos de quem tenta assistir tv deitado no sofá, arranha braços, late, esconde-se entre as poltronas,... Em contrapartida, aumentou-me a conta de papel higiênico e desinfetantes; aprendi a regrar a comida de animais; mudou nossa rotina.


Marinalva vive aos ralhos, ameaçando-a de taca, mas ela não toma jeito, já se acha a tal. Já cheguei a dizer que nessa casa não cabemos eu e ela. Então ouvi que a porta estaria livre para mim. Quanto às postagens no Facebook, só obtiveram contraditórios de meus filhos, kkks de amigos e nenhuma proposta de adoção. Resta-me fazer o quê?
−Não morde meus pés, cadelinha metida!
Essa Tuquinha é mesmo cheia de moral.